Desvendando motoristas

Núcleo do departamento de psicologia da Universidade Federal do Paraná se dedica a mapear o comportamento dos motoristas e aponta algumas tendências

Imagine a cena. Você está dirigindo seu carro e aparece uma bola quicando da calçada para a rua. Você, então, imagina que uma criança deve vir correndo atrás e freia imediatamente. Quanto tempo demora até que o carro pare? A maioria absoluta das pessoas responde que o carro para, quase, imediatamente. Certo?

Vamos pensar. Primeiro, estima-se que o tempo de processamento da informação para que você inicie a frenagem do veículo leva aproximadamente um segundo. Se você estiver andando a 80 km/h (ok, é uma velocidade exagerada, mas não duvide que muitos carros a atinjam em cidades grandes), esse segundo de demora para acionar o freio vai te fazer andar por mais 22 metros. Até o carro parar completamente, ele ainda deve avançar mais 30 metros. Então, no total, o carro terá avançado por quase meia quadra. E pode, sim, atingir a criança que virá correndo atrás de sua bola.

Quer dizer, então, que as pessoas não têm real noção do perigo de dirigir um carro na cidade?

Exatamente!

Pelo menos é o que mapeia o Núcleo de Psicologia do Trânsito, da Universidade Federal do Paraná, coordenado pela psicóloga Iara Thielen. O departamento produz pesquisas que tentam compreender os fatores psicológicos do comportamento dos motoristas no trânsito. Em funcionamento desde 2007, o núcleo já conseguiu apontar algumas tendências que qualquer morador de cidade grande (ou qualquer pessoa tenha assistido o ), intuitivamente, já sabe. A diferença é que, quando apresentados formalmente em estudos e artigos científicos, esses padrões de comportamento podem influenciar políticas públicas que restrinjam o uso do carro, por mostrar um de seus aspectos negativos pouco discutidos: o psicológico.

Conheça alguns dos padrões de comportamento desenvolvidos com o uso excessivo do carro:

1. O trânsito não é percebido como um fenômeno coletivo pelas pessoas.
Há um individualismo exacerbado por parte dos motoristas. “As pessoas sempre acreditam que o problema é dos outros, que correm feito loucos, enquanto que elas mesmas só exageram ‘um pouquinho’”, explica Iara. Essa é a mesma desculpa para comportamentos sociais ilegais, segundo ela. Em uma pesquisa com um grupo de pessoas que recorriam de suas multas, Iara se deparou com um infrator que tinha estacionado em local proibido e quis saber o motivo da revolta contra a multa. “Ele me disse que tinha estacionado lá em um domingo e que, por isso, não estava atrapalhando ninguém”, conta ela. “Isso é muito comum, pessoas que culpam o código de trânsito e que querem subvertê-lo para favorecer seus próprios interesses”, explica. O mesmo se dá para pessoas que param em cima da faixa: a culpa nunca é delas. É o farol que fechou e não deu tempo de seguir, por exemplo. Ou, pior, dizem não estar atrapalhando, que os pedestres podem, perfeitamente, contornar o carro.

As pesquisas também apontam que as formas de melhorar o trânsito apontadas por motoristas são mais fiscalização, mais radares para evitar o excesso de velocidade. “Ninguém nunca admite que precisa tirar o próprio pé um pouco do acelerador”, complementa. A função da fiscalização, para ela, é punir os mal educados, não educar.

2. Esse individualismo dá margem para uma noção de “propriedade do espaço público”
Os outros carros sempre são percebidos pelos motoristas como uma ameaça ao seu espaço. “Se um motorista está transitando e aparece outro em sua frente, ele logo pensa ‘como é que ele ousou ocupar meu espaço?’”, explica Iara. Todo motorista, segundo ela, pensa intuitivamente ter mais direito do que os outros e sempre encara um carro que tome sua dianteira como uma agressão. Por isso o comportamento tem se tornado tão violento. E há um componente físico que piora o quadro: o ponto cego do carro. Acontece muitas vezes de haverem “fechadas” não intencionais no trânsito. Mas, nesse ambiente de guerrilha, as reações sempre acabam sendo mais inflamadas do que o necessário.

3. Há uma hierarquia muito clara no trânsito – que define quem é “mais dono” e quem é “menos dono” do espaço público
Pedestres têm menos direitos que os ônibus, que têm menos direitos que os carros, que têm menos direitos que os carros caros. “Quanto maior o status, mais dona do espaço público a pessoa se sente”, diz Iara. Só que, no trânsito, as mesmas chances de ocupar o espaço são dadas a todos. E, como os veículos ficam atravancados no trânsito, a ocupação das ruas vira uma disputa violenta pelo espaço entre carros, ônibus e pedestres.

4. A noção de perigo é subestimada, em especial por quem é jovem
Sabe aquela história de “prefiro que o carro dê PT de uma vez, para ser ressarcido pelo seguro”? Pois bem, é um discurso muito comum, que não leva em conta as consequências do acidente que gerar essa Perda Total no veículo. O perigo de andar em alta velocidade é subestimado.  “Excesso de velocidade é entendido pela maioria dos motoristas com ‘andar acima da minha capacidade de controlar a potência do veículo’”, explica Iara. “Essas opiniões individuais distorcem o sentido de segurança e do espírito social que é o trânsito”, complementa. “O cuidado com o outro é invisível porque eles acreditam que controlam absolutamente a situação e que podem parar o carro no instante em que quiserem”, adverte Iara.

5. O excesso de carros é visto por um problema pelos motoristas, que afirmam que não se deve vender mais carros… para os outros.
As cidades estão saturadas de veículos. Curitiba, por exemplo, possui a maior frota per capita do Brasil. São Paulo recebe mil novos veículos todos os dias. Claro que o trânsito vai piorar, é uma questão física: não há espaço para tantos carros. Até aí, segundo Iara, todo mundo concorda. O problema apontado por ela é quando se começa a discutir a solução. “Todo mundo diz que não se pode mais vender carros, mas absolutamente ninguém mostra a menor disponibilidade de se desfazer ou diminuir o uso do seu”, diz ela. “Não dá para viver sem carro na cidade, é impossível”, dizem os motoristas. “Ok, mas assim também fica impossível resolver tanto o problema do trânsito quanto esses padrões de comportamento que estão fazendo as cidades ficarem tão violentas”, diz a psicóloga.

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14 Comentários

  1. Nicholas

    A análise está perfeita! Fora a bicicleta, ando por aí com uma bela Toyota Bandeirante velha. Neste carro, que os demais motoristas respeitam mais por medo de um esbarrão do que por respeito mesmo, "brinco" de respeitar a velocidade máxima das vias. Incentivo qualquer motorista a tentar faze-lo (é, tentar, pois com a pressão do fluxo de veículos e o conforto dos carro atuais, digo que é bem difícil ficar abaixo dos 40 ou dos 30 em zonas residenciais). É assustadora a constatação de que quase ninguém liga para estes limites de segurança. Como se tudo na vida fosse perfeitamente previsível e controlável.

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    • machael

      Poxa Nicholas eu também andei muito de bandeirantes rsrsrs e vi exatamente isso que vc relata, os cara respeitam mesmo tremem de medo numa dividida rsrsrsr isso so ressalta o que o estudo mostra!!!! Aqui na minha cidade custumo dizer que posso chegar em no maximo 10 minutos em qualquer ponto da cidade…entaum pra quer correr…não sei se já aconteu contigo, mas as vezes passa um cara "voado" por mim ai marco no relogio em no maximo 3 min o imbecil está ao meu lado novamente em algum semafaro ou cruzamento kkkkkkkkkk 3 min 3 min…e ele podia ter matado alguem, se acidentado etc etc

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  2. marina chevrand

    sobre a relacao velocidade X tempo de frenagem, tem um campanha inglesa muito boa, eh uma serie chamada THINK UK

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  3. Juliana Elias

    Nalgum dos varios artigos que surgiram por conta daquele bafão do metrô de higienópolis, e do churrascão depois, alguém, na Folha ou Estadão, acho, disse que São Paulo colhia os frutos por ter priorizado uma política que prega que conforto é sinônimo de exclusividade. Me faz pensar muito nisso.. e na falta de pensamento coletivo que as pessoas que se deslocam em seu carro acabam tendo.

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  4. Francine Souza

    Eu dirijo há um ano e esses dias, mesmo sem correr, na minha preferencial, levei uma porrada de alguém que me atravessou e ainda me jogou num muro.Moro em Curitiba e fico transtornada com a falta de educação de motoristas que viram onde querem (lá na frente a placona de conversão proibida), param onde querem, principalmente em entrada e saída de escola (Para dar aquele oizinho básico ao outro), não dão seta pra lugar algum, simplesmente jogam o carro na sua frente, enfim…fora os que empacam quando resolve chover.E aqueles que te metem a buzina quando Vc dá seta para estacionar?? É o cúmulo !! Todo mundo deveria ter uma aulinha junto!! E os pedestres então, que depois que souberam que se forem atropelados a culpa é sua (motorista), chegam a andar no meio da rua, no sentido contrário, como se tb fôssem carros, só que na sua via ! Ah, não sei nem mais o que dizer…sei que me sinto impotente e frustrada.

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  5. Marina

    Esses dias andei com uma motorista que me contou que nunca usa cinto de segurança porque é uma coisa muito perigosa. No banco de trás para crianças, então, nem pensar. E cadeirinha era a pior coisa que uma mãe poderia fazer ao filho. A explicação era que se viesse um assaltante, ninguém poderia se soltar do cinto a tempo, e além do mais, o cinto só servia para machucar mais na hora do acidente (porque ao amarrar o corpo no banco, deixa a cabeça solta, e em um capotamento pode dar torcicolo!). É a mais completa falta de informação das pessoas, que são irresponsáveis ao extremo. Obs: essa motorista conduz uma van que transporta adolescentes de 14 anos!

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  6. Humberto Guerra

    Muito bom. Eu apenas trocaria a palavra "individualismo" por "egoísmo". Nossas decisões são quase sempre individualistas, o que não necessariamente significa cercear o direito alheio ou perder a noção de alteridade – não se importar com o espaço do outro ou não achar que o outro está sujeito às mesmas regras é algo melhor traduzido pelo egoísmo. O meu individualismo só se sustenta sem contradições na medida em que garante o espaço para que o, digamos, "individualismo alheio" não seja limitado.

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  7. Cidades para Pessoas

    niceeee

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  8. Alan

    Muito legal o seu site. Parabéns pela inciativa e por seu envolvimento na causa.

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  9. Fernando

    Excelente materia !
    Como motorista e ciclista, experimento os dois lados da moeda e tambem digo que volta e meia perco a paciencia no transito de carros, seja pelo calor, pelas barbeiragens, pela falta de respeito generalizada…
    Agora quando vou de bike, e ainda se estiver com os amigos, cuidamos uns dos outros, damos risada, coisa de outro mundo !! Rs. No meu parco conhecimento, o capitalismo deixa as pessoas excessivamente estressadas ao estimular a concorrencia alem do limite, entao o carro vira um dos canos de escape…Bem, entao vamos de bike !!

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  10. Denis Braga

    Conheço um blog de uma pessoa que tem uma camera em seu carro filmando todos seus trajetos no seu dia a dia. É muito interessante por que ele consegue dar um "flagrante" em vários absurdos cometidos por motoristas tanto quanto a desrespeito às leis ou má condução mesmo.

    Em muitos dos vídeos a pessoa que filma tem razão, porém em outros casos ele está errado (no meu ponto de vista) por que ele parece extamente o Pateta no desenho da Disney que foi colocado no texto da matéria. Vejam e tirem suas próprias conclusões.

    Sinal Vermelho Curitiba :

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  11. manouchk

    Essa ideia de usar uma filmadora para filmar todos os seus trajetos é legal! Pretendo adaptá-la a bicicleta para mostrar as maracutaias dos motorista de carro, ônibus e caminhões.

    Gostei do blog sinal vermelho!

    Emmanuel M. Favre-Nicolin
    Blog Vitória Sustentável

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  12. Sucata

    O pilota do jato LEGACY foi processado por falar mal dos brasileiros…… o que vai acontecer com esse cara??????….

    A FRAUDE E A IGNORANCIA DO BLOG

    1- O dono desse blog, só responde o que lhe convém.2- Não mostra, são retiradas do blog, todas as perguntas que ele não sabe responder.3- Bloqueia participantes que fizeram perguntas como acima citada ou que mostraram seus erros.4- Quanto mais fronteiras mais guerras ( o bonito e o feio, o gordo e o magro, o branco e o negro, o rico e o pobre, o que dirige melhor e o pior, o que tem uno mille e o que tem outro carro etc… )5- Para se afirmar algo, tem que fazer uma pesquisa, não é mesmo? Sair filmando uma cidade e afirmar que aquela é a pior, mas não filmar pelo menos outras cinco, para depois poder fazer um comparativo, é ignorância, é estatística sem fundamento.6- Se eu sair filmando só coisa ruim , naturalmente que mostrarei só coisa ruim, se eu ficar o dia inteiro filmando brigas em uma cidade , eu só postarei brigas, se eu só filmar roubos durante um período de tempo, e montar um vídeo só com essas imagens, certamente vocês dirão que a minha cidade é a mais violenta não é mesmo?7- Trata-se de uma probabilidade: quanto mais eu faço algo, mais propenso eu fico a algo dar errado, ou seja, quanto mais eu corro, desvio, costuro no transito, maior a probabilidade de eu ter que frear, bater etc….8- O dono desse blog, só responde o que lhe convém.9- Quando mostrados os seus erros ( que são muitos ) ele não responde.Prefere xingar quem faz comentários contra a sua postura e ou apontam seus erros, do que se redimir e tirar o blog do ar, pois o mesmo se contradiz. Um diálogo de paz se realiza com palavras sábias que estimulam a reflexão, e se sustenta, paradoxalmente, quando imaginamos corpos dilacerados, casas em ruínas, olhos vazios. A propósito, a incapacidade para dialogar denuncia um imperdoável pecado decorrente da superficialidade10- Quando ele mostra um motorista fazendo algo errado, existem no MINIMO outros dois bem ao lado que NÃO estão fazendo barbeiragem.11- Passam por ele centenas de carros, ou ele passa por centenas de carros que não fazem besteira, mas quando acha um, há, ai vem palavrões, xingamentos etc. esse achado, serve para massagear o seu ego.12- Portanto existem mais motoristas fazendo algo certo do que errado.13- Como citado acima ( item 09 muitos erros ) o dono do blog fala mal e xinga os outros, mas ele comete os mesmo erros, todos eles bem visíveis.14- Ele diz que o blog serve para mudar o comportamento do motorista, ou para conscientizar o motorista, ou ainda educar o motorista…….. então não precisamos de auto escolas, então que o DETRAN comece a passar videozinhos de acidentes e barbeiragens e etc..para que os futuros motoristas aprendam a dirigir. Ou ainda vamos educar nossos filhos a não matar, roubar ou brigar, mostrando vídeos com esses temas…. será que ele faz isso?????????15- A probabilidade de um carro em baixa velocidade matar outra pessoa, é bem menor do que a do carro em alta velocidade ( lembrando que um carro a 40 KM/h pode matar uma pessoa ).16- Se você correr ele te filma e xinga, se vc andar devagar ele te xinga, se vc virar a direita e te xinga, se vc virar a esquerda ele te xinga, se vc tem moto ele te xinga, se vc tem um caminhão ele te xinga, se vc é taxista ele te xinga, se vc esta estacionando ele te xinga, se vc esta saindo ele te xinga… ou seja vc tem que andar como ele quer, o mundo gira ao seu redor.

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  13. Sucata

    Mais alguns videos que desmascaram o sinal vermelho curitiba Sr antonio borba


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  1. - [...] Iara Thielen, do Núcleo de Psicologia do Trânsito da Universidade Federal do Paraná, em entrevista ao projeto Cidades para…
  2. - [...] Iara Thielen, do Núcleo de Psicologia do Trânsito da Universidade Federal do Paraná, em entrevista ao projeto Cidades para…
  3. - […] Matéria publicada originalmente pela jornalista Natália Garcia, no Cidade Para Pessoas, em 8 de junho de 2013. Leia a publicação…

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