“Em seu vigésimo aniversário, o Critical Mass deve levar 20 mil ciclistas às ruas de São Francisco”. Era o que dizia a reportagem de capa do The Cronical. O jornal local estava estampado na parede do “Welcome center”, espaço organizado pelos ciclistas mais envolvidos com o movimento do Critical Mass para receber estrangeiros que vieram a São Francisco participar da pedalada histórica.
Um dos organizadores e co-autores do Critical Mass, o historiador, escritor e ativista Chris Carlsson, passou a semana recebendo ciclistas que vinham participar do evento e conduzindo programações paralelas à pedalada. Carlsson esteve envolvido na criação do movimento desde o início, em 1992. O Critical Mass nasceu de maneira anárquica e ainda sem nome (seria batizado alguns anos depois) com a bandeira de reocupar os espaços públicos tomados pelos carros na cidade. Em uma entrevista concedida ao rádio sobre a comemoração dos 20 anos do movimento Carlsson explicou que, de maneira anárquica, sem líderes ou roteiros pré-estrabelecidos, os ciclistas se reúnem toda última sexta-feira do mês no horário de rush para ocupar as ruas da cidade.
“Mas você não percebe que isso atrapalha a gente?”, perguntou o radialista.
“Vocês me atrapalham enquanto estou pedalando minha bicicleta todos os outros 29 dias do mês e os atrapalho apenas nesse único”, respondeu Carlsson, com seu típico bom humor provocativo.
Por volta das 4 da tarde, todos no Welcome Center começaram a se agitar para seguir até o começo da Market Street, o tradicional ponto de partida do Critical Mass. A concentração da pedalada já estava lotada às 5 da tarde e era impressionante a diversidade de idades, gêneros (São Francisco é a cidade da pluralidade dos gêneros), fantasias e tipos de bicicletas no local. É possível que os personagens mais inusitados do mundo estivessem reunidos lá, de “fada madrinha da maconha” a “rei dos Teletubbies”.
“Algumas pessoas pensam no Critical Mass como um movimento pelo uso das bicicletas como meio de transporte nas ruas, mas para mim ele é mais do que isso. Nós queremos que a cidade recupere sua função de promover encontros e trocas entre as pessoas, acreditamos que estamos perdendo espaços públicos agradáveis de permanência porque nossas cidades têm servido cada vez mais aos carros. Com o Critical Mass, queremos devolver a cidade às pessoas”, diz Carlsson.
Por volta das 6h20 a massa começou a se mover ao som de Carruagens de Fogo, que vinha da caixa de som de uma das bicicletas que levaram música ao Critical Mass. Buzinas de bicicletas, apitos e tambores eram entoados enquanto muitos dos ciclistas gritavam “feliz aniversário” ou “feliz sexta-feira!”. Em 20 minutos de pedalada, a massa já era tão grande que perdíamos de vista.
Começamos a entrar nas áreas que costumam ter trânsito mais pesado pela cidade. Receosa em relação aos motoristas, fiquei surpresa ao vê-los com as mãos abertas para fora dos carros gritando “toca aqui!” para os ciclistas. Passageiros de transporte público acenavam e sorriam. Crianças gritavam “olha lá, quanta bicicleta!”.
A noite caiu e as bicicletas foram acendendo sua iluminação – que ia desde as luzinhas de segurança branca e vermelha a coloridas e ornamentas luzes psicodélicas, refletidas em bolinhas de sabão que pairavam pelo ar. Esse cenário que criamos era aplaudido por todos que, da calçada, viam o Critical Mass passar. Muitos, aliás, com bicicletas estacionadas em paraciclos tomando cerveja nos botecos – mostrando que nem todo ciclista estava pedalando no Critical Mass.
É bem possível que os 20 mil ciclistas tenham, de fato, comparecido porque antes ainda de cair a noite eu e a Ju nos perdemos – e só fomos nos reencontrar em casa, horas depois. Chris Carlsson tinha razão: o maior legado do Critical Mass não é promover a bicicleta como meio de transporte, mas promover encontros interessantes e inusitados. E foi emocionante fazer parte desse movimento que quer devolver as cidades às pessoas.
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