O futuro do trabalho é o não-trabalho

trabalhop

ilustração: Juliana Russo
(clique para ver maior)

“Ando trabalhando demais”. É bem possível que você se identifique com esse sentimento. Mas repare que, mesmo em dias sem tantas pendências profissionais, há uma mania de eficiência que transforma o tempo em um recurso difícil de usufruir sem culpa. Bem, é exatamente isso que o filósofo italiano Domenico de Masi quer que você tenha a mais: tempo livre. Uma ideia que pode causar algum estranhamento a princípio. Afinal, como pensar em tempo livre se é comum desejarmos justamente o oposto: um dia com mais horas, para produzirmos mais. É que para De Masi esse paradigma da eficiência – produzir o máximo possível, de preferência no menor intervalo de tempo – está ultrapassado, pertence ao século passado. Ele acredita que agora estamos no século do Ócio Criativo; título de um de seus livros.

Para sustentar sua tese, Domenico de Masi afirma que estamos vivendo um daqueles períodos históricos que marcam a transição entre duas Eras. A última vez em que isso aconteceu no mundo foi com a Revolução Industrial, que moldou essa mania de eficiência que temos hoje. Essa revolução teve início em 1850, na Inglaterra, onde diversas indústrias foram construídas no meio do caminho entre o campo e a cidade. Tinham que estar próximas tanto da matéria prima rural quanto do mercado urbano. E como as fábricas precisavam de gente para trabalhar, o governo inglês adotou políticas severas de desestímulo (e, em alguns casos, proibição) de trabalho nos campos, para atrair as pessoas às cidades. E, longe do campo, diante da impossibilidade de plantar, a única saída para ter o que comer era trabalhar no chão de fábrica em troca de algum dinheiro – os ingleses que se recusassem eram queimados a ferro e fogo em praça pública. Foi aí que o trabalho se estabeleceu como o meio de sobreviver na cidade – e deixou de estar ligado à expressão de um potencial ou vocação.

Para o filósofo italiano, carregamos uma porção de heranças desse período. Uma delas é o próprio conceito de trabalho, atrelado a sofrimento – aliás, se examinarmos a etimologia, trabalho vem de tripalium, um antigo instrumento de tortura. A outra é uma certa obsessão pela padronização. Para que tudo desse certo na linha de montagem, os trabalhadores precisavam atuar de maneira padronizada – talentos e vocações individuais eram qualidades indesejadas pelas grandes empresas, fato que se repete com alguma freqüência até hoje. E a terceira herança industrial que carregamos é a da segregação entre vida e trabalho. Os funcionários de uma fábrica, ao baterem cartão, viravam uma espécie de chave interna que determinava que, naquele momento, diversão e individualidade eram proibidos. Foco, silêncio e produtividade eram a ordem. A vida ficava para depois do expediente.

Acontece que a Revolução Industrial terminou. E, se naquela época a economia era totalmente lastreada pelos bens de consumo tangíveis, como ouro e petróleo, hoje vemos uma vertente de economia dos intangíveis, também chamada de economia criativa, onde os bens que circulam são serviços, informações, tecnologia e criatividade. É nessa transição que vivemos, diz De Masi. E para a economia dos intangíveis, a lógica do trabalho sofrido, da padronização e da segregação entre trabalho e diversão não interessam.

O filósofo italiano acredita que estamos moldando uma nova ordem mundial, e o Brasil terá um papel importantíssimo nessa história. Ele explica que os dois sistemas político-econômicos mais importantes do mundo ocidental – a social-democracia européia e o neo-liberalismo americano – atravessam uma severa crise porque não funcionam mais. Está na hora de criar um modelo novo, ele acredita. E, dentre as economias emergentes que mais crescem no mundo – Brasil, Russia, Índia, China e África do Sul – o Brasil é o país com menos conflitos étnicos e melhores relações diplomáticas. E, em sua última vinda ao país, esse ano, defendeu: somos um forte candidato a criar uma nova ordem mundial.

E como será essa nova ordem?

De Masi acredita que a resposta passa necessariamente pela reinvenção do modelo de trabalho. Se na lógica moldada pela revolução industrial havia apenas um caminho profissional correto a seguir – fazer uma boa faculdade, passar por alguns estágios até se estabelecer em uma grande empresa – agora há uma infinidade de caminhos possíveis. Em vez de brigar pelas vagas de emprego existentes, está na hora de inventar novos trabalhos. E a única maneira de fazer isso é deixar de buscar fora de si as respostas profissionais. É da conexão com os talentos e vocações internos e da compreensão de como eles podem ser expressados que nascem novos modelos de trabalho.

Se o filósofo italiano estiver certo, o trabalho deixará definitivamente de ser sinônimo de sofrimento, padronização e tédio. É possível afirmar, seguindo a lógica de Domenico De Masi, que o futuro do trabalho é o “não-trabalho”.

 

(publicado originalmente na revista Dante Cultural)

Compartilhe:

10 Comentários

  1. Carlos Elson Cunha

    Um assunto complexo, que passa pela estrutura capitalista da produção, do lucro maximizado e dos custos reduzidos ao mínimo possível. As potências industriais vivem à base destes conceitos, como também a China. É impossível um ator menor, como o Brasil, alterar a ordem mundial. Não que eu concorde com ela, preciso deixar claro.

    Responder
    • RC

      Isso não começou com a revolução industrial. Começou a partir do momento que as pessoas começaram a medir os seus valores como seres humanos como sendo igual a sua capacidade de gerar riqueza.

      O Brasil é poderia ser um dos piores exemplos para criar um novo sistema: (i) falso moralismo; (ii) república do coxismo; (iii) atraso no desenvolvimento cultural (que leva ao próximo item); (iv) atraso no desenvolvimento humano.

      Sendo simplista, os trabalhos foram criados para atender necessidades orgânicas do homem. O que existe hoje, principalmente no Brasil, é a tentativa (e muitas vezes com sucesso, pelos motivos acima expostos) de se criar demanda para coisas que não necessitamos.

      A nível experimental, se um determinado grupo explorasse somente o ócio criativo, todos morreriam de fome. Aquilo que um oferece não atenderia o outro, que pensaria em outra coisa para fazer, olhando simplesmente para uma vontade própria e não necessidade.

      Eu concordo com o modelo atual? Não. Mas até hoje ninguém conseguiu pensar, de maneira pragmática, em um modelo melhor.

      Responder
    • bravenewworld1984

      Isso não começou com a revolução industrial. Começou a partir do momento que as pessoas começaram a medir os seus valores como seres humanos como sendo igual a sua capacidade de gerar riqueza.

      O Brasil é um dos piores exemplos para criar um novo sistema: (I) falso moralismo; (II) república do coxismo; (III) atraso no desenvolvimento cultural; (iv) atraso no desenvolvimento humano.

      Sendo simplista, os trabalhos foram criados para atender necessidades orgânicas do homem. O que existe hoje, principalmente no Brasil, é a tentativa (e muitas vezes com sucesso, pelos motivos acima expostos) de se criar demanda para coisas que não necessitamos.

      A nível experimental, se um determinado grupo explorasse somente o ócio criativo, todos morreriam de fome. Aquilo que um oferece não atenderia o outro, que pensaria em outra coisa para fazer, olhando simplesmente para sua vontade e não necessidades do grupo.

      Eu concordo com o modelo atual? Não. Mas até hoje ninguém conseguiu pensar, de maneira pragmática, em um modelo melhor.

      Responder
  2. Edemar Luiz Carneiro

    Concordo com Domenico De Masi. Estamos chegando ao ponto-de-viragem em áreas de economia, produção industrial e agrícola, educação profissional, religião, filosofia de vida pessoal e socio-política, direitos individuais e coletivos, senso de responsabilidade social e ação fraterna. Já existem muitos segmentos de emprego e renda que desvinculam os profissionais das sedes das empresas e passam a contar com sua criatividade e produtividade em suas próprias residências familiares. Será necessário brevemente outra espécie de moeda de troca, que seja capaz de vencer na luta das mudanças, libertando toda a população humana terrestre desses velhos conceitos dos sistemas de economia, finanças, relações profissionais e lideranças
    políticas e sociais. Se cada pessoa, (vencendo o próprio Ego), produzisse bens visando percentualizar uma partilha fraterna, (através de Cooperativas Sociais), já estaria erradicada toda a miséria da população mundial.
    Edemar Carneiro – Viamão – RS 30 de julho de 2013.

    Responder
  3. Andréa

    Concordo com Carlos, ainda mais que aqui reproduzimos o modelo norteamericano, e parecemos inclusive cultuá-lo.

    Responder
  4. Alex Rodrigues

    Existe um problema nessa análise de pensadores como o De Masi, do Castelis, que são baseadas no pensamento que é a Economia que é o motor das revoluções, tanto que o De Masi afirma que a revolução importante é a Industrial, mas na minha percepção ela foi gerada por uma muito mais importante e anterior, a invenção da imprensa que gerou a Revolução Protestante, que essa sim, criou os cenários sociais e econômicos para que uma nova ordem surgisse, a Revolução Industrial é portanto, um reflexo nos modos de produção dessa nova forma de pensar, dessa Revolução Cognitiva.

    Responder
    • angelik

      alex, diga-me, na lógica das suas afirmações o que teriamos agora com a revolução da era do conhecimento e da informação?

      Responder
  5. Pedro Medrado Negrao

    “O Brasil é o País do Futuro”
    E nunca vai deixar de ser.

    Responder
  6. Batlex

    Falar em “não-trabalho” é Utopia. Claramente, o que todos os países precisam não é a invenção de novos modelos econômicos, mas sim a reelaboração inovadora e mesclagem dos padrões vigentes. Trabalho é o ápice da sociedade, e falar no abandono deste é aderir ao regresso social e humano. O povo precisa trabalhar, ter rotina, ceder ao desejo de absoluto lazer e funcionar a mente. Sem trabalho, ainda seríamos símios subdesenvolvidos vivendo em estado de subsistência e nenhum de nós estaria aqui debatendo (mesmo que tardiamente) o que há de novo para o futuro.

    Responder

Trackbacks/Pingbacks

  1. O futuro do trabalho é o não-trabalho | Livros e afins - […] Para sustentar sua tese, Domenico de Masi afirma que estamos vivendo um daqueles períodos históricos que marcam a transição…
  2. O futuro do trabalho é o não-trabalho | O CasuloO Casulo - […] Fonte: Cidades para Pessoas (Publicado originalmente na revista Dante Cultural) […]

Enviar Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *